Efemérides
‘Is This It’, dos Strokes, completa 25 anos como marco do rock dos anos 2000
Estreia da banda nova-iorquina reuniu “Last Nite”, “Someday” e “Hard to Explain” e ajudou a redefinir o rock de guitarras no início do século.

O álbum Is This It, estreia dos Strokes, completou 25 anos nesta quinta-feira, 30 de julho. Lançado inicialmente na Austrália em 2001, o disco apresentou em 11 faixas a combinação de guitarras econômicas, melodias diretas e produção deliberadamente crua que transformou a banda nova-iorquina em uma das referências centrais do rock dos anos 2000.
A data de 30 de julho consta no catálogo oficial dos Strokes e no registro da Apple Music. A chegada do álbum ocorreu de forma escalonada: a edição australiana saiu primeiro, aproveitando uma turnê da banda pelo país, enquanto outros mercados receberam o trabalho nas semanas seguintes.
Com cerca de 35 minutos, Is This It reuniu músicas como “The Modern Age”, “Someday”, “Last Nite”, “Hard to Explain” e “Take It or Leave It”. O repertório consolidou a formação composta por Julian Casablancas, Albert Hammond Jr., Nick Valensi, Nikolai Fraiture e Fabrizio Moretti.
Um disco curto, direto e pouco polido
Os Strokes gravaram o álbum em Nova York com o produtor Gordon Raphael. A escolha estética foi evitar o acabamento expansivo que dominava parte do rock comercial da época. As guitarras se dividem entre linhas complementares, a bateria permanece seca e a voz de Casablancas aparece comprimida e levemente distorcida.
Essa contenção não significa falta de trabalho de estúdio. O som foi construído para parecer imediato, como uma banda tocando em uma sala pequena, mas com arranjos precisos. A crítica publicada pela Pitchfork em outubro de 2001 destacou justamente a produção enxuta, os ritmos firmes e os refrões simples que soavam familiares sem depender de excesso de efeitos.
As letras se concentram em relações desgastadas, vida noturna, hesitação e juventude urbana. Casablancas evita narrativas grandiosas e trata situações cotidianas com uma interpretação indiferente apenas na superfície. O contraste entre a voz contida e a execução acelerada da banda se tornou uma das assinaturas do disco.
Last Nite e Hard to Explain ampliaram o alcance
“Hard to Explain” foi o primeiro single do álbum e apresentou ao público a dinâmica entre as duas guitarras, a bateria comprimida e o canto quase conversado de Casablancas. “Last Nite” ampliou o alcance comercial do grupo com um refrão imediato e um videoclipe que preservava a aparência de apresentação ao vivo.
“Someday” acrescentou um tom mais melancólico ao repertório. Em vez de tratar a juventude como uma fase de liberdade permanente, a música olha para amizades e relações que já parecem destinadas a mudar. A faixa se tornou uma das gravações mais reconhecidas dos Strokes e ajudou a demonstrar que a economia musical do álbum não dependia apenas de velocidade.
A sequência também inclui “Soma”, “Barely Legal”, “Alone, Together” e “Trying Your Luck”. Não há baladas convencionais, solos longos ou mudanças bruscas de direção. O disco mantém a mesma linguagem durante toda a duração, com pequenas variações de andamento e intensidade.
Duas capas marcaram o lançamento
A edição internacional de Is This It ficou conhecida pela fotografia em preto e branco de uma mulher nua, com uma mão coberta por luva de couro apoiada sobre o quadril. A imagem foi feita por Colin Lane e escolhida por Julian Casablancas depois que o vocalista viu a fotografia no portfólio do profissional.
Em entrevista à GQ britânica, Lane contou que a imagem havia sido registrada antes de seu primeiro trabalho com a banda. O fotógrafo levou o portfólio a uma sessão e a foto acabou selecionada quando a equipe da RCA ainda aguardava uma definição para a capa.
A América do Norte recebeu outra arte, baseada em uma imagem de colisão de partículas. Segundo Lane, Casablancas encontrou a fotografia científica depois que a primeira versão já estava em produção para outros mercados. As duas capas passaram a representar edições diferentes do mesmo álbum.
Influência atravessou o indie rock
O lançamento ocorreu em um período no qual o rock de guitarras dividia espaço com o nu metal, o pop punk, a música eletrônica e o pop produzido para grandes audiências. Os Strokes não foram os únicos responsáveis pela retomada do garage rock, mas se tornaram o rosto mais visível de uma geração associada a clubes pequenos, roupas sem acabamento ostensivo e canções curtas.
A repercussão abriu espaço para comparações com Velvet Underground, Television e grupos do pós-punk. Também ajudou a criar um ambiente favorável para bandas que surgiram ou ganharam projeção na sequência. O catálogo da Apple Music cita Arctic Monkeys, The Libertines, The Killers e Kings of Leon entre os nomes alcançados pela influência do grupo.
A importância do disco não depende de uma suposta invenção de linguagem. Parte de sua força está em reorganizar referências anteriores com clareza e apresentar aquele repertório como música contemporânea, sem transformar o passado em exercício de imitação histórica.
Aniversário coincide com nova fase dos Strokes
Os 25 anos de Is This It encontram os Strokes em atividade. A banda lançou em 24 de julho de 2026 o álbum Reality Awaits, primeiro trabalho de estúdio desde The New Abnormal, de 2020. O disco atual amplia o uso de sintetizadores, Auto-Tune e estruturas menos rígidas, afastando-se da fórmula da estreia.
A diferença entre os dois trabalhos ajuda a dimensionar o alcance do debut. Is This It permanece como referência para cada nova fase dos Strokes, mas a banda evita tentar reproduzir literalmente aquele som. Em 2026, o grupo mantém a mesma formação de estúdio e apresenta um repertório que já atravessa sete álbuns.
Vinte e cinco anos depois, Is This It continua funcionando como um registro compacto de uma banda em seu primeiro momento de projeção. O álbum não precisou de longa duração ou produção grandiosa para alterar a percepção sobre o rock daquela década. Bastaram 11 músicas, pouco mais de meia hora e uma identidade reconhecível desde os primeiros segundos.
Imagem: The Strokes durante as gravações de Reality Awaits. Crédito: Johann Rashid/NME.
