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Foo Fighters e Rise Against comandam abertura do Rock in Rio

Primeira noite do festival equilibrou a segurança histórica do Foo Fighters, a urgência do Rise Against e o domínio de palco do The Hives.

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Foo Fighters e Rise Against comandam abertura do Rock in Rio

A primeira sexta-feira do Rock in Rio 2026 confirmou uma força antiga do festival: quando o repertório pesa tanto quanto a estrutura, o Palco Mundo funciona melhor como arena compartilhada do que como simples vitrine. O Foo Fighters fechou a noite com um show apoiado na própria história, enquanto o Rise Against transformou um problema logístico grave em prova de eficiência ao vivo. Antes deles, The Hives e Nova Twins mostraram dois caminhos diferentes para conquistar um espaço desse tamanho.

O resultado foi uma abertura sólida, embora pouco interessada em renovar a ideia de uma grande noite de rock. A programação funcionou mais pela personalidade das bandas do que por qualquer surpresa de produção. Nos melhores momentos, o tamanho da Cidade do Rock deixou de ser o assunto e a execução voltou ao centro.

Foo Fighters troca excesso por repertório e precisão

O Foo Fighters entrou pouco depois da meia-noite com All My Life, The Pretender e Times Like These. A sequência estabeleceu rapidamente o terreno do show: sucessos reconhecíveis, andamento firme e pouca disposição para alongamentos que, em outras passagens pelo festival, diminuíram o impacto do repertório. Em quase duas horas, Dave Grohl conduziu uma apresentação mais concentrada do que a de 2019.

A presença de Ilan Rubin na bateria ajudou a renovar o peso das músicas. O músico tocou com força, sustentou vocais de apoio e evitou que a execução parecesse apenas uma reprodução confortável do catálogo. Isso foi importante em faixas como Rope, Walk e Monkey Wrench, nas quais a precisão rítmica precisa conviver com a aparência de descontrole que caracteriza a banda no palco.

O ponto mais interessante, porém, esteve nas escolhas menos óbvias. Marigold, composição de Grohl associada ao período do Nirvana, interrompeu a sequência de sucessos com uma raridade que dialoga diretamente com sua trajetória. Mais perto do fim, Exhausted, do primeiro álbum do Foo Fighters, apareceu após um pedido da plateia e foi tocada pela primeira vez no Brasil. Entre Best of You e Everlong, a inclusão evitou que o encerramento se reduzisse a um roteiro previsível.

O show não redesenhou a identidade do Foo Fighters nem apresentou uma leitura especialmente nova da banda. Sua força esteve em aceitar o que esse repertório representa e executá-lo sem transformar cada canção em pretexto para uma demonstração de resistência. A segurança foi evidente, mas não burocrática.

Rise Against encontra urgência sem depender da produção

Horas antes, o Rise Against subiu ao mesmo palco sem os próprios instrumentos. O equipamento da banda foi extraviado durante o transporte, e a apresentação só aconteceu porque músicos e equipes locais forneceram o necessário para o show. A situação retirou boa parte da camada de controle que costuma cercar uma atração internacional desse porte.

Em vez de compensar o problema com explicações ou cautela, o grupo concentrou o set em canções que dependem de velocidade, refrões e resposta coletiva. Re-Education (Through Labor), Give It All, Ready to Fall, Prayer of the Refugee e Savior formaram a espinha dorsal de uma apresentação direta, com rodas abertas na plateia e pouca distância entre palco e público.

A adversidade não tornou o show bom por si só. O que a transformou em parte da narrativa foi a capacidade da banda de preservar dinâmica e intenção sem os recursos planejados. A passagem acústica de Swing Life Away ofereceu o respiro necessário, enquanto Make It Stop (September's Children) manteve o peso político e emocional que diferencia o Rise Against de grupos que trabalham apenas a superfície do punk melódico.

Foi o desempenho mais urgente do Palco Mundo. Não porque tenha sido impecável, mas porque a execução permaneceu convincente quando o aparato deixou de estar disponível. Em um festival construído para o excesso, essa limitação expôs o fundamento do show.

The Hives entende a lógica do festival

O The Hives fez sua estreia no Rock in Rio com uma vantagem que poucas bandas dominam tão bem: a capacidade de tratar um público parcialmente desconhecido como se ele já estivesse dentro da apresentação. Pelle Almqvist usou frases em português, humor e uma dose calculada de autocelebração para conduzir a plateia sem depender de cenografia complexa.

A estratégia funcionou porque havia músicas para sustentá-la. Hate to Say I Told You So, Walk Idiot Walk e Tick Tick Boom ofereceram pontos imediatos de reconhecimento, enquanto faixas dos dois discos mais recentes impediram que o set virasse uma lembrança exclusiva dos anos 2000. O garage rock da banda continua simples na forma, mas exige precisão para que a repetição produza tensão em vez de cansaço.

O Hives chegou perto desse limite algumas vezes, sobretudo quando as falas estenderam uma piada já compreendida. Ainda assim, a apresentação soube recuperar o movimento antes de perder a plateia. O encerramento com Nobody Does It Better resumiu o método: a afirmação exagerada faz parte do personagem, mas o grupo trabalha o suficiente para que ela não pareça vazia.

Nova Twins expõe a hierarquia de atenção

Escalado para abrir o Palco Mundo às 16h40, o Nova Twins encontrou um gramado ainda disperso. Amy Love e Georgia South responderam com uma apresentação física, baseada na combinação de riffs pesados, baixo processado e elementos eletrônicos. Uma pequena roda perto da grade mostrou que havia reação, embora distante da escala vista mais tarde.

O contraste disse mais sobre a distribuição de atenção do festival do que sobre a qualidade do show. A atração mais contemporânea e menos dependente de memória foi colocada justamente no horário em que o público ainda chegava e se espalhava pela Cidade do Rock. Enquanto Foo Fighters e Rise Against trabalharam repertórios amplamente reconhecidos, o Nova Twins precisou apresentar linguagem e identidade ao mesmo tempo.

A banda não recebeu a resposta mais numerosa da sexta-feira, mas deixou a contribuição mais ligada ao presente. Seu set mostrou que a renovação do rock em um festival desse tamanho continua condicionada ao espaço e ao horário concedidos a quem ainda não carrega décadas de catálogo.

Palco Sunset transforma memória em encontro

No Sunset, o encontro entre Capital Inicial e Dado Villa-Lobos ligou a trajetória da banda ao rock de Brasília e ao repertório da Legião Urbana. Será, Tempo Perdido e Quase Sem Querer dividiram espaço com Fátima e À Sua Maneira, formando um bloco construído para o canto coletivo. A fala política durante Que País É Este? reforçou a atualidade pretendida para músicas que já atravessaram gerações.

Falhas de som, no entanto, reduziram a força da apresentação e tornaram irregulares alguns dos momentos que deveriam reunir palco e plateia. O valor do encontro permaneceu na combinação dos repertórios e na presença de Villa-Lobos, mas a execução não alcançou a mesma consistência das melhores atrações do Mundo.

Mais cedo, Detonautas e Biquíni também recorreram à memória coletiva, com músicas como Só Por Hoje, Zé Ninguém e Tédio. A resposta numerosa mostrou que o rock brasileiro encontrou no Sunset uma relação imediata com o público. Ao mesmo tempo, a predominância de repertórios consolidados reforçou o traço central da noite: a sexta-feira funcionou melhor como afirmação de continuidade do que como anúncio de futuro.

Uma abertura forte, sem reinvenção

O primeiro dia do Rock in Rio não redefiniu o formato de uma noite de guitarras. Foo Fighters venceu pela escala e pela seleção do repertório. Rise Against entregou a apresentação mais urgente. The Hives dominou a lógica do entretenimento de festival. Nova Twins indicou onde existe renovação, mesmo diante de um público menor. No Sunset, os encontros brasileiros provaram a permanência das canções, ainda que a técnica nem sempre acompanhasse a intenção.

A síntese da sexta-feira esteve nessa diferença. Os shows mais convincentes foram aqueles em que a personalidade da banda permaneceu visível depois que luzes, telões e discursos foram retirados da equação. O festival abriu com nomes capazes de ocupar um espaço enorme, mas seus melhores momentos vieram quando a música não precisou parecer maior do que já era.

Fontes consultadas