Notícias
A epidemia dos flyers de IA: quando economizar na arte empobrece o próprio evento
Imagens geradas por inteligência artificial estão tomando a comunicação de festas, bares e festivais. O problema vai além da estética: elas apagam identidades, precarizam o trabalho criativo e transformam eventos diferentes em produtos visualmente indistinguíveis.

Durante décadas, o flyer foi uma das principais portas de entrada para uma festa, um show ou um festival.
Antes de ouvir o DJ, conhecer o espaço ou atravessar a porta do evento, o público já tinha contato com sua proposta por meio de uma imagem. Um bom flyer não servia apenas para informar data, horário, atrações e endereço. Ele indicava a qual cena aquele evento pertencia, qual atmosfera pretendia construir e que tipo de experiência seria encontrada ali.
Com a popularização das ferramentas de inteligência artificial generativa, essa função começou a ser substituída por outra lógica: abrir uma plataforma, escrever algumas instruções e aceitar a primeira imagem suficientemente chamativa produzida pela máquina.
O resultado é uma avalanche de personagens excessivamente polidos, iluminações artificiais, letras metalizadas, fundos escuros, fumaça digital, objetos deformados e composições que parecem impressionantes durante dois segundos, mas raramente comunicam algo próprio.
Uma festa emo, uma noite eletrônica, um evento de Halloween, um festival gastronômico e uma promoção de happy hour começam a compartilhar a mesma estética plastificada.
O flyer deixa de apresentar uma identidade. Passa apenas a anunciar que existe alguma coisa acontecendo em algum lugar.
A pandemia dos flyers do ChatGPT
Em julho de 2026, o site norte-americano 404 Media classificou o fenômeno como uma “pandemia de flyers do ChatGPT”.
A reportagem reuniu cartazes utilizados para divulgar festas, shows, bares, restaurantes, campanhas comunitárias, eventos esportivos e ações beneficentes. Embora anunciassem experiências completamente diferentes, as peças pareciam ter saído do mesmo pacote visual.
Entre os elementos recorrentes estavam letras grandes e brilhantes, personagens artificiais, blocos com pequenos ícones, setas, palavras sublinhadas e fundos genéricos.
Poucos dias depois, o veículo publicou uma segunda seleção com exemplos enviados pelos leitores. As imagens geradas por IA já não estavam restritas às redes sociais. Apareciam impressas em restaurantes, placas, vitrines, materiais públicos e divulgações de eventos comunitários.
A reportagem do Chron sobre a proliferação desses cartazes em Houston chegou a uma conclusão semelhante. Segundo profissionais de comunicação ouvidos pela publicação, a velocidade e o baixo custo ajudam a explicar a adoção, mas o efeito é uma comunicação sem autenticidade e incapaz de construir uma identidade reconhecível.
A imagem pode até chamar atenção no primeiro contato. O problema começa quando o público percebe que já viu aquela mesma festa dezenas de vezes, ainda que com outros nomes, datas e atrações.
Quando todas as festas começam a parecer a mesma festa
Ferramentas de inteligência artificial são treinadas com grandes volumes de imagens já existentes. Elas produzem novas peças identificando e recombinando padrões encontrados nesse material.
Quando milhares de organizadores utilizam comandos semelhantes, os resultados também tendem a ser semelhantes.
Surge então uma linguagem visual padronizada, baseada em exagero, impacto imediato e falta de contexto. Tudo parece grandioso, brilhante e cinematográfico. Quase nada parece pertencer verdadeiramente àquela marca, àquela cidade ou àquela comunidade.
Para eventos culturais, essa perda é especialmente grave.
Uma festa não vende apenas uma sequência de atrações. Ela vende expectativa, pertencimento, memória e identificação. O público precisa reconhecer naquela comunicação algum sinal de que existe uma proposta pensada especificamente para ele.
Quando o flyer parece ter sido gerado pela mesma ferramenta utilizada para anunciar um rodízio, um congresso empresarial e uma promoção de bebida, essa relação começa a desaparecer.
O organizador pode acreditar que está modernizando a divulgação. Para parte do público, porém, a mensagem recebida é outra: se o evento escolheu o caminho mais rápido, barato e impessoal justamente em sua apresentação, talvez tenha aplicado a mesma lógica ao restante da produção.
O flyer deixa de despertar curiosidade e passa a produzir desconfiança.
Um evento cultural que elimina o trabalho criativo
A contradição se torna mais evidente quando festas e festivais ligados à arte substituem profissionais criativos por imagens geradas automaticamente.
Eventos dependem do trabalho de músicos, DJs, fotógrafos, performers, produtores, técnicos, cenógrafos, videomakers, ilustradores e designers. São negócios que frequentemente pedem ao público que valorize artistas, fortaleça cenas locais e compre ingressos para que projetos independentes continuem existindo.
Quando essas mesmas organizações eliminam um profissional visual da cadeia de produção, o discurso começa a rachar.
Em junho, uma publicação sobre o Denver Chalk Art Festival acusou o evento, dedicado justamente à arte produzida por pessoas, de utilizar imagens geradas por inteligência artificial em peças promocionais.
O episódio ganhou repercussão porque a organização possuía contato direto com artistas, patrocinadores, fotografias próprias e material de edições anteriores. Não faltavam pessoas capazes de produzir aquela comunicação. Faltou escolher incluí-las no processo.
Mesmo quando a economia parece pequena, a mensagem cultural é grande.
A organização afirma que a arte importa, mas trata o artista como um custo dispensável.
“Contratar um designer custa caro”
A limitação financeira é real, especialmente para festas pequenas, coletivos independentes e produtores realizando suas primeiras edições.
Mas a escolha não precisa ser entre uma campanha cara e uma imagem artificial.
Uma fotografia real do espaço, uma composição tipográfica simples, uma colagem, uma imagem de edição anterior ou até uma peça intencionalmente artesanal podem comunicar mais personalidade do que uma ilustração grandiosa produzida em segundos.
O problema não é um produtor utilizar ferramentas acessíveis para organizar informações, remover um fundo, adaptar formatos ou testar possibilidades.
A inteligência artificial pode auxiliar um processo criativo conduzido por pessoas.
O problema começa quando ela substitui conceito, repertório, direção artística e autoria.
Economizar dinheiro eliminando aquilo que diferencia um evento pode ser uma falsa economia. A organização poupa na criação da peça, mas perde reconhecimento de marca, conexão com o público e capacidade de se destacar em um ambiente dominado por imagens semelhantes.
Um flyer ruim não deixa de ter custo. Ele apenas cobra de outra forma.
Quando o atalho chega à cena alternativa brasileira
No Brasil, o uso de imagens com características compatíveis com inteligência artificial generativa também pode ser observado na comunicação de eventos ligados à música e à cultura alternativa.
Entre os exemplos estão peças divulgadas por projetos como Bloco Emo, Emotour Brasil e Sad Baile.
A formulação precisa ser responsável: sem acesso aos arquivos originais, ao processo de criação ou a uma confirmação dos responsáveis, nem sempre é possível comprovar tecnicamente como cada imagem foi produzida.
Ainda assim, elementos como personagens artificialmente polidos, texturas inconsistentes, objetos deformados, iluminação genérica e ausência de uma linguagem visual autoral levantam questionamentos legítimos sobre a utilização dessas ferramentas.
Também não estamos falando apenas de pequenos produtores improvisando uma primeira edição sem orçamento.
Bloco Emo, Emotour Brasil e Sad Baile são marcas conhecidas dentro de seus respectivos públicos. Possuem presença digital consolidada, calendário de eventos, venda profissional de ingressos, estrutura de produção e capacidade de mobilizar centenas ou milhares de pessoas.
Isso não significa afirmar que esses eventos possuem dinheiro ilimitado. Produzir festas no Brasil é caro, arriscado e frequentemente menos lucrativo do que parece para quem observa de fora.
Mas significa reconhecer que se tratam de operações estruturadas, capazes de definir prioridades dentro de seus orçamentos.
Quando existe investimento em espaço, atrações, DJs, equipe técnica, segurança, bar, fotografia, influenciadores, anúncios e plataformas de ingresso, a comunicação visual não pode ser tratada como uma etapa descartável.
Ela faz parte do produto que está sendo vendido.
A contradição de vender pertencimento sem valorizar quem cria
A situação se torna ainda mais contraditória porque esses eventos não vendem apenas entretenimento.
Eles comercializam identidade, nostalgia, pertencimento e conexão com uma cena cultural. Utilizam referências, símbolos e repertórios construídos por músicos, fotógrafos, designers, ilustradores, produtores e fãs ao longo de décadas.
Recorrer à inteligência artificial para economizar justamente no trabalho de um artista visual revela uma incoerência difícil de ignorar.
A organização pede ao público que compre ingressos, apoie artistas, valorize a cena e mantenha esses espaços vivos. Ao mesmo tempo, quando chega o momento de contratar alguém para criar a identidade daquela edição, o profissional criativo pode ser tratado como um custo substituível por algumas instruções escritas em uma plataforma.
Isso não fortalece a cena alternativa.
Isso utiliza sua imagem enquanto enfraquece uma das categorias profissionais que ajudam a construí-la.
A cena alternativa brasileira enfrenta uma luta constante para se manter viva. Casas de shows fecham, bandas interrompem atividades, festas desaparecem, profissionais abandonam suas áreas e artistas acumulam funções porque raramente conseguem viver exclusivamente de seu trabalho.
Nesse contexto, eventos estruturados substituírem criação visual por imagens geradas automaticamente não representa apenas uma decisão estética ruim.
Representa a normalização da ideia de que podemos continuar consumindo a cultura produzida por artistas enquanto eliminamos os próprios artistas do processo.
Quanto maior o evento, maior deveria ser sua responsabilidade sobre a cadeia criativa que ajuda a sustentar.
Quando um pequeno produtor utiliza IA por absoluta falta de recursos, ainda existe espaço para discutir acesso, formação e alternativas. Quando uma marca consolidada faz a mesma escolha, o debate passa a ser principalmente sobre prioridades.
Não é necessário contratar uma agência internacional ou produzir uma campanha de dezenas de milhares de reais.
Fotografia real, colagem, tipografia, ilustração, arquivos de edições anteriores e parcerias remuneradas com artistas emergentes oferecem caminhos mais acessíveis e muito mais coerentes com uma cena que afirma valorizar autenticidade.
A reação contra o conteúdo sintético
A saturação de imagens artificiais já começa a provocar uma reação estética.
O jornal The Guardian identificou o crescimento de uma linguagem chamada de “anti-slop”, expressão utilizada para descrever trabalhos que valorizam características evidentemente humanas: traços manuais, colagens, rabiscos, fotografia real, stop motion, imperfeições e processos artesanais.
Em vez de competir com o acabamento sintético da inteligência artificial, artistas e marcas passaram a destacar justamente aquilo que a máquina tem dificuldade de reproduzir: intenção, contexto, memória, personalidade e sinais visíveis de trabalho humano.
Esse movimento faz ainda mais sentido dentro da cultura alternativa.
Punk, emo, hardcore, metal, indie, gótico e outras cenas construíram parte de sua identidade por meio de flyers xerocados, fotografias granuladas, colagens, tipografias irregulares e materiais produzidos com poucos recursos, mas muita intenção.
Essas peças não eram relevantes apesar de suas limitações. Eram relevantes porque carregavam as marcas das pessoas e das comunidades que as produziram.
A imperfeição possuía identidade.
O flyer de IA tenta parecer tecnicamente perfeito enquanto elimina qualquer vestígio de quem está por trás do evento.
O flyer também faz parte da experiência
Produtores costumam investir em atrações, bebidas, decoração, som, iluminação e estrutura, mas ainda tratam a comunicação visual como uma embalagem descartável.
Esse raciocínio ignora que a experiência começa muito antes da abertura dos portões.
Ela começa quando alguém vê o primeiro anúncio, reconhece uma referência, entende o conceito e decide que aquela festa parece ter sido construída para pessoas como ela.
Um bom flyer não precisa ser caro, complexo ou tecnicamente impecável.
Precisa ter intenção.
Precisa demonstrar que existe alguém pensando sobre o evento, seu público e sua identidade. Precisa apresentar alguma evidência de que aquela experiência não saiu da mesma máquina utilizada para anunciar outras centenas de festas, promoções e produtos.
Um evento alternativo não deveria ter como objetivo apenas parecer alternativo.
Ele deveria agir de maneira coerente com a cultura da qual retira sua estética, seu público e seu faturamento.
Porque não existe defesa verdadeira da cena quando o discurso manda apoiar artistas, mas o orçamento começa eliminando um deles.
