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Lula venceu: o medo de perder seguidores vale mais que os nossos direitos?

A vitória de Lula cobra coerência de quem vende diversidade. O público tem o direito de reconhecer quem defende suas liberdades e merece o seu corre.

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Lula venceu: o medo de perder seguidores vale mais que os nossos direitos?

Lula venceu o segundo turno presidencial deste domingo, 25 de outubro, contra Flávio Bolsonaro. Para a cultura alternativa, sua reeleição representa a maior vitória democrática desta eleição: derrotou a candidatura do bolsonarismo e preservou condições políticas para defender liberdades, enfrentar discriminações e disputar políticas culturais. A comemoração, porém, deixa uma cobrança que o mercado de eventos precisa ouvir: quem vende pertencimento está disposto a defender as pessoas que pertencem à sua pista?

Essa pergunta vale para festas, festivais, casas e produtoras. Sobretudo para marcas que construíram sua identidade em torno da diversidade, da liberdade de expressão e do acolhimento de quem já foi tratado como estranho. Se esses valores ajudam a vender ingressos, precisam ter algum peso quando defendê-los ameaça custar seguidores.

Na matéria anterior, discutimos as raízes de esquerda da cena alternativa. Agora, a questão chega a quem transforma essa história em negócio. Há uma responsabilidade em faturar com uma comunidade que precisou conquistar o direito de aparecer, se expressar e ocupar espaços. O compromisso cobrado do público para manter uma festa viva precisa encontrar reciprocidade de quem a organiza.

O medo de perder seguidores não pode ser maior que o medo de perder direitos

Quando um grande evento evita se posicionar numa disputa como essa, é legítimo perguntar o que pesou. Receio de perder compradores? Pressão de patrocinador? Divergência entre sócios? Convicção política que a marca prefere esconder? A resposta depende de cada caso. Mas a pergunta não pode ser interditada com a desculpa de que política estraga a diversão.

Política entra no evento antes do primeiro DJ. Entra na possibilidade de uma artista apresentar seu trabalho sem censura, na proteção de uma mulher assediada, no tratamento dado a uma pessoa trans na entrada, na resposta a uma agressão racista e nas condições de trabalho de quem monta o palco. Pedir que esses assuntos fiquem do lado de fora significa pedir que parte da vida de quem sustenta a festa também fique.

Existe, sim, custo comercial em tomar posição. Há quem deixe de seguir, reclame, organize ataques ou prometa nunca mais comprar ingresso. O problema aparece quando a administração trata esse risco como mais importante que os riscos enfrentados pelas pessoas cuja presença dá valor à marca.

O medo de perder seguidores não pode ser maior que o medo de perder direitos e liberdades. Uma empresa que se apresenta como abrigo para a diferença precisa conseguir sustentar essa frase quando ela deixa de render aplausos fáceis.

Do contrário, o acordo fica cruelmente desigual: o público oferece dinheiro, divulgação, confiança e presença; a marca oferece solidariedade apenas enquanto ela não incomodar ninguém. Na hora de abrir o lote, pede comunidade. Na hora de defender essa comunidade, calcula o alcance.

Quanto maior o evento, maior a responsabilidade

Uma produtora pequena pode depender de uma única casa, carregar dívidas e ter pouca proteção contra retaliações. Esses riscos precisam ser considerados. Já uma operação consolidada, com equipe, patrocinadores e alcance, dispõe de recursos diferentes para sustentar uma posição. Quanto maior a capacidade de mobilizar pessoas, menos convincente fica usar o tamanho do negócio como justificativa automática para a omissão.

Isso não exige transformar cada divulgação em propaganda eleitoral. Exige responder por uma contradição: como apresentar um evento como espaço de liberdade e tratar como inconveniente a defesa das condições que tornam essa liberdade possível?

No caso desta eleição, a escolha tinha um histórico verificável. O Ministério da Cultura havia sido rebaixado no governo Jair Bolsonaro e foi recuperado em 2023. Os vetos de Bolsonaro às leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2 precisaram ser derrubados pelo Congresso. E o ex-presidente foi condenado pelo STF pela tentativa de golpe de Estado. Essa comparação pesa muito mais que a conveniência de manter uma base de seguidores sem conflito.

Flávio foi o candidato derrotado em 2026; a condenação mencionada é de Jair Bolsonaro. O vínculo político com o bolsonarismo é parte da avaliação desta disputa, sem confundir responsabilidades criminais individuais.

Quem prefere não declarar apoio a um candidato continua responsável por explicar como defende os valores que anuncia. A ausência de um post, isoladamente, não revela tudo que uma organização fez. Mas também não existe imunidade à crítica para uma marca que exige reconhecimento por seu acolhimento e se recusa a prestar contas sobre ele.

O público tem o direito de escolher quem merece o seu corre

Comprar ingresso custa dinheiro. Sair de casa exige transporte, organização, tempo e, para muita gente, uma parcela relevante do orçamento do mês. Divulgar uma festa para os amigos também entrega algo: a própria credibilidade. Esse investimento sustenta empresas e ajuda a decidir quais projetos crescem.

Por isso, o público precisa observar quem luta junto com ele. Quem enfrenta a discriminação quando o agressor é um cliente que consome muito? Quem acolhe uma denúncia quando ela envolve alguém conhecido da produção? Quem paga a equipe corretamente? Quem sustenta publicamente a defesa da democracia quando isso incomoda parte dos compradores?

Correr com quem merece o seu corre é um critério legítimo de escolha. Ninguém deve fidelidade eterna a uma festa porque já teve uma noite boa ali. O trabalho para comprar um ingresso não cria obrigação de financiar uma marca que trata seus direitos como um problema de comunicação.

Também seria fácil demais absolver uma produção porque ela publicou apoio a Lula. O mesmo critério precisa alcançar quem se declara progressista: segurança preparada, acolhimento de denúncias, respeito ao nome social, combate ao racismo, contratação responsável e pagamento em dia. O posicionamento público compromete a empresa com essas práticas. Não compra uma licença para desrespeitá-las.

A cobrança alcança esta agência e qualquer outro produtor. Quem pede apoio à própria festa precisa aceitar que o público examine sua conduta, cobre correções e retire esse apoio quando a coerência acabar. Uma comunidade tem memória, autonomia e poder de escolha. Tratá-la como audiência cativa já revela o tamanho do respeito que se tem por ela.

Dez razões para considerar a vitória de Lula uma conquista para a democracia e a cultura alternativa

Há fundamentos concretos para essa posição. Eles combinam decisões do governo, leis aprovadas pelo Congresso e conquistas da sociedade civil. O resultado eleitoral dá continuidade a um campo político mais favorável a essas pautas; fazer com que elas funcionem seguirá exigindo cobrança.

1. O bolsonarismo foi derrotado novamente nas urnas. A condenação de Jair Bolsonaro pelo STF, em setembro de 2025, por crimes ligados à tentativa de golpe dá materialidade ao risco autoritário. Impedir o retorno desse campo à Presidência tem peso democrático. Para quem produz cultura, poder criticar o governo e se organizar livremente é condição de trabalho.

2. A cultura recuperou lugar próprio no governo federal. Lula devolveu status ministerial à área em janeiro de 2023, após seu rebaixamento em 2019. Isso restituiu uma estrutura dedicada a formular e executar políticas culturais. O setor ganhou um espaço institucional específico para apresentar demandas e cobrar decisões.

3. O financiamento cultural passou a ter uma perspectiva permanente. A Política Nacional Aldir Blanc nasceu em 2022, fruto de mobilização e atuação legislativa. A Lei 15.132, sancionada por Lula em 2025, tornou essa política permanente. Os valores dependem do orçamento e da execução, mas a continuidade oferece uma base mais consistente para planejar cultura nos estados e municípios.

4. A retomada cultural encontrou apoio na execução federal. A Lei Paulo Gustavo foi aprovada em 2022 após a derrubada do veto de Bolsonaro e regulamentada pelo governo Lula em 2023. Reconhecer a conquista do Congresso e dos trabalhadores da cultura torna a comparação mais precisa: houve um governo que vetou o instrumento e outro que conduziu sua regulamentação e implementação.

5. Os direitos LGBTQIA+ ganharam um canal institucional de participação. O Decreto 11.471/2023 instituiu o Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, com participação do governo e da sociedade civil. É uma estrutura para propor, acompanhar e cobrar políticas. Para eventos que anunciam acolhimento, reconhecer essas pessoas como sujeitos de direitos deve ter consequência além da publicidade.

6. A proteção das mulheres chegou expressamente à rotina da noite. A Lei 14.786/2023, aprovada pelo Congresso e sancionada por Lula, criou o protocolo Não é Não. A norma alcança casas noturnas, boates e eventos musicais nas condições previstas em lei, com deveres de acolhimento e proteção. A liberdade de frequentar uma festa exige que a produção responda ao assédio e à violência.

7. O combate ao racismo recebeu reforço legal. A Lei 14.532/2023, também aprovada pelo Congresso e sancionada por Lula, inseriu a injúria racial na Lei do Racismo e reforçou o tratamento de práticas racistas em contextos de diversão e recreação. Uma pista que se pretende acolhedora precisa levar esse compromisso para a porta, o bar, os camarins e a equipe de segurança.

8. Liberdade artística e laicidade foram reafirmadas no fomento. A Lei 14.903/2024 determina que o regime próprio de apoio à cultura garanta liberdade de expressão artística, intelectual, cultural e religiosa, respeitando a laicidade do Estado. Essa proteção importa para obras e estéticas que desafiam padrões morais. O direito de criar não pode depender da aprovação religiosa de quem governa.

9. A produção independente ganhou instrumentos mais adequados. O mesmo marco de fomento reconhece diferentes formatos de agentes culturais e permite participação de grupos e coletivos sem personalidade jurídica. Isso aproxima os mecanismos públicos de como parte da cultura realmente se organiza. Editais continuam exigindo critérios e seleção; estruturas menores precisam ter condições de disputar esse acesso.

10. A participação social na política cultural ganhou uma base regulamentada. A Lei 14.835/2024 estruturou o Sistema Nacional de Cultura, com cooperação entre os entes federativos, participação da sociedade e atenção à diversidade cultural. Quem trabalha fora dos grandes circuitos comerciais precisa de canais para influenciar decisões, fiscalizar recursos e disputar prioridades. Democracia cultural exige que essa voz seja ouvida.

A vitória não encerra a cobrança

Lula venceu, e há motivos sólidos para comemorar esse resultado. O mandato seguinte terá de responder por orçamento, execução, proteção de direitos e condições de trabalho. Apoiar sua vitória também significa cobrar o cumprimento dessas responsabilidades. A autonomia para fazer essa cobrança é parte do que se defende.

Para o mercado alternativo, a pergunta permanece: o compromisso com a liberdade acompanha o público quando o custo aumenta ou termina na confirmação do pagamento?

O público tem o direito de lembrar quem se posicionou, verificar quem agiu e escolher onde investir seu dinheiro e seu tempo. Quem pede o corre de uma comunidade precisa estar disposto a correr por ela também.

Imagem: Lula ergue a Constituição Federal e a bandeira do Brasil diante de apoiadores na Avenida Paulista, em São Paulo, em 24 de outubro de 2026. Crédito: Reprodução / Metrópoles.

Origem da imagem: https://www.metropoles.com/sao-paulo/em-av-paulista-lotada-lula-ergue-constituicao-ao-som-do-hino-nacional .

Fontes consultadas