Música
Blessthefall e Memphis May Fire atravessam fases do metalcore em São Paulo
No Carioca Club, o Blessthefall percorreu seis discos e fez da proximidade com a pista seu principal recurso, enquanto o Memphis May Fire concentrou 14 das 17 músicas na fase recente.

O Blessthefall e o Memphis May Fire levaram duas leituras diferentes do metalcore ao Carioca Club no sábado, 29 de agosto de 2026, em São Paulo. Em uma noite próxima da capacidade máxima da casa, as bandas dividiram uma programação marcada por rodas constantes, refrões cantados em coro e repertórios que lidaram de formas distintas com a própria história.
Com produção da Liberation MC e abertura do Reckoning Hour, o evento também chamou atenção pela definição sonora. A combinação de instrumentos ligados em linha e bases de apoio preservou o impacto dos breakdowns sem transformar guitarras, bateria e vozes em uma massa indistinta, mesmo quando a pista ficou mais movimentada.
O ponto mais interessante da noite, porém, esteve no contraste. O Blessthefall montou um panorama de seis discos e tratou a proximidade física com o público como parte do show. O Memphis May Fire fez a escolha oposta: usou poucos clássicos como ligação com o passado e concentrou quase toda a apresentação nos dois trabalhos mais recentes.
Blessthefall transforma o palco em extensão da pista
O Blessthefall abriu sua hora de apresentação com You Wear a Crown But You’re No King, uma escolha que colocou o público imediatamente dentro de Hollow Bodies, de 2013. A sequência com Cutthroat, Hollow Bodies, 2.0 e What’s Left of Me deixou claro que o repertório não seria organizado apenas ao redor do disco atual.
Foram 14 músicas distribuídas por seis álbuns. Gallows, lançado em 2025, apareceu em quatro faixas: Drag Me Under, mallxcore, Venom e Wake the Dead. Ao mesmo tempo, canções de Witness, Awakening, Hard Feelings, Hollow Bodies e até His Last Walk impediram que o show se tornasse uma simples apresentação promocional.
Essa amplitude funcionou porque a banda não tratou as fases antigas como bloco nostálgico separado. Material recente e clássicos entraram no mesmo fluxo, mantendo alternância entre peso, melodias e refrões que pediam participação coletiva. A inclusão de Drag Me Under também ampliou o repertório apresentado em São Paulo em relação à passagem da turnê por Belo Horizonte.
Beau Bokan conduziu o show sem se limitar ao centro do palco. Os pedidos por rodas e movimento foram acompanhados por contato constante com as primeiras fileiras. No encerramento, durante Hey Baby, Here’s That Song You Wanted, o vocalista entrou na plateia e voltou em crowdsurfing. A cena resumiu a proposta do Blessthefall naquela noite: reduzir a distância entre banda e público até que a pista passasse a integrar a performance.
Memphis May Fire prefere o presente à nostalgia
O Memphis May Fire voltou a São Paulo depois de 12 anos. A passagem anterior havia ocorrido em 23 de agosto de 2014, também no Carioca Club. Quem esperava que a ausência longa resultasse em um repertório retrospectivo encontrou outro tipo de apresentação.
O início ofereceu a ligação mais direta com a primeira fase de maior projeção da banda. The Sinner, de The Hollow, abriu o show, seguida por Vices, de Challenger. Depois disso, o repertório avançou rapidamente para Paralyzed e Shapeshifter e praticamente não voltou atrás.
Das 17 músicas, 14 pertencem a Remade in Misery, de 2022, e Shapeshifter, de 2025. A escolha tornou o show coerente com o ciclo atual, mas cobrou um preço evidente: não houve nenhuma faixa de Unconditional, disco especialmente associado à passagem anterior do grupo pelo Brasil. Para parte do público, a ausência pode ter sido sentida. Como decisão artística, porém, ela deixou clara a recusa da banda em sobreviver apenas do catálogo de uma década atrás.
Matty Mullins sustentou bem essa proposta. A alternância entre vocais limpos e rasgados permaneceu controlada durante um repertório que exige mudanças rápidas de registro. Bleed Me Dry, Somebody e Misery equilibraram agressividade e refrões melódicos, enquanto Left for Dead, The Other Side, Infection e Overdose concentraram o peso da fase recente.
Na pista, dois núcleos de mosh se formaram em pontos diferentes e cresceram ao longo do show. Make Believe, Versus e Love Is War conduziram o bloco final antes do bis. Na volta, Miles Away ofereceu o momento mais melódico da apresentação, antes de Blood & Water devolver o público ao movimento.
O fechamento com Chaotic reuniu as duas rodas em um círculo maior, ocupando uma parte considerável da pista. Se o clímax do Blessthefall aconteceu quando Beau Bokan entrou no público, o Memphis May Fire encerrou fazendo o movimento inverso: conduziu a plateia como um corpo coletivo a partir do palco.
Duas bandas próximas, dois shows diferentes
Blessthefall e Memphis May Fire compartilham público, vocabulário musical e uma história ligada à expansão do metalcore norte-americano nos anos 2000 e 2010. No Carioca Club, essa proximidade não produziu duas apresentações iguais.
O Blessthefall entregou o repertório mais panorâmico e usou carisma, contato físico e memória de diferentes discos como motores. O Memphis May Fire apresentou um show mais concentrado e atual, com execução precisa e poucos desvios da fase formada por Remade in Misery e Shapeshifter.
A ausência de músicas de Unconditional impede que a apresentação do Memphis seja lida como revisão definitiva da carreira. Em compensação, reforça a principal mensagem da noite: as duas bandas não chegaram a São Paulo para reproduzir mecanicamente o período em que ganharam projeção. Cada uma encontrou uma forma própria de colocar passado e presente diante de uma pista disposta a responder.
Fontes consultadas
Conteúdo produzido com informações próprias da Agência Midnight; nenhuma fonte externa foi cadastrada.
